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Conheça a história real por trás do filme “As Golpistas”, com Jennifer Lopez

Roselyn Keo, sem jamais ter ficado na frente ou atrás de uma câmera, teve a oportunidade de posar no tapete vermelho de uma pré-estreia internacional, monopolizou capas de revistas e sites do mundo e lançou seu primeiro livro, The Sophisticated Hustler (“a golpista sofisticada”, em tradução livre). Tudo após cometer um crime midiático e contá-lo até os últimos detalhes.

A ascensão e posterior queda do grupo de strippers que fraudaram alguns dos homens mais ricos e poderosos do setor financeiro norte-americano chegou aos cinemas com muita expectativa. Jennifer Lopez e Constance Wu protagonizam As Golpistas (Hustlers), com indicações para Melhor Atriz Coadjuvante no Globo de Ouro e no SAG Awards para JLo e críticas deslumbradas. Uma história real que veio à luz graças às confissões de Roselyn (interpretada por Constance Wu) reunidas pela jornalista Jessica Pressler na New York Magazine.

Rosie, como prefere ser chamada Roselyn Keo, é filha de refugiados cambojanos que chegaram aos Estados Unidos em busca do sonho americano, mas fracassaram. Com 17 anos, ela já tinha largado o colégio depois que seus pais partiram e deixaram a menina e seu irmão sob os cuidados dos avós. Vivia em Nanuet, um povoado que fica quarenta minutos de carro ao norte de Nova York, e trabalhava como garçonete em uma lanchonete situada junto a um clube de strip-tease. Animada pelas propostas dos funcionários do local, a quem servia café toda madrugada, Rosie decidiu atravessar a rua, mentir a respeito da idade e começar a dançar sobre um tablado faturando, só de gorjetas, mais de mil dólares por noite.

Keo não demorou em subir à primeira divisão e se tornou uma atração habitual nas casas noturnas mais exclusivas de Manhattan, frequentadas por executivos do setor financeiro, dispostos a “se embebedarem e se divertirem com as garotas”. Em uma dessas casas conheceu Samantha Barbash (interpretada por Jennifer Lopez no filme), uma das strippers mais veteranas e procuradas da cena nova-iorquina. A julgar pelas descrições feitas por Keo, ela (que já tinha passado dos 30 anos) conjugava um cérebro digno de Wall Street com um corpo digno de Jessica Rabbit. Todas queriam trabalhar com ela para poder se beneficiar de seu poder de atração de clientes, tendo em conta que, ao contrário da maioria dos clubes do mundo, aqui eram as próprias garotas que pagavam para trabalhar neles.

“As mulheres são valorizadas, acima de tudo, por sua beleza, e os homens por seu dinheiro, seu sucesso e seu poder. As normas que regem um clube são as mesmas normas que regem o mundo”. Lorene Scafaria, diretora de As Golpistas, resumiu assim na revista Time o argumento de um filme que consegue fazer os espectadores se identificarem com personagens que encarnam aquilo de “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Quando Keo voltou a trabalhar após seu afastamento por maternidade, a crise financeira de 2008 deixava notar seus devastadores efeitos também nos palcos das boates. Nem a lotação nem as gorjetas eram comparáveis às de meses antes. Por isso era tão importante o trabalho de atração de clientes feito por Barbash (também conhecida como Foxx), que àquela altura já havia deixado o pole dance para se dedicar por completo às relações públicas. Seu nível de vida, sem a necessidade de dançar ou manter relações sexuais com os clientes, era um enigma para Rosie, que não hesitou quando teve a chance de entrar para o exclusivo círculo de confiança da bailarina.

O sistema delitivo era sempre o mesmo: uma das garotas marcava um jantar para a vítima/cliente, no qual o seduzia e embebedava. O resto do grupo se juntava ao encontro mais tarde, levando a presa ao clube e lhe oferecendo drogas, para depois espremer seu cartão de crédito. Se algum se mostrava reticente em se deixar levar e participar dessa segunda fase, Barbash se encarregava de drogá-lo contra sua vontade, oferecendo-lhe o que ela denominava de bebida especial, e que na verdade era uma mistura de cocaína, ketamina e MDMA. Se queriam sexo, a própria Rosie contava com uma lista de prostitutas que ela mesma tinha formado, para garantir que cumpririam o plano estabelecido. As faturas de alguns clientes podiam chegar a cifras próximas dos 300.000 dólares semanais. “Realmente era tão terrível que uns sujeitos de Wall Street despertassem com dívidas enquanto algumas mulheres podiam pagar seu aluguel, pagar à babá e comprar uns Louboutin?”, pergunta-se hoje Keo, que agia como cérebro administrativo e contabilista da fraude.

stripper conta que as próprias vítimas, drogadas, lhe ofereciam os dados de suas contas bancárias, da previdência social e até “o sobrenome de solteira de suas mães”. Alguns clientes contestavam as cobranças feitas em seus cartões, mas depois discretamente retiravam as queixas, por medo de que suas famílias ficassem sabendo de suas escapadas recreativas, ou que a atenção da imprensa pusesse em perigo os seus privilegiados empregos. Durante anos, a polícia fez vista grossa às dezenas de telefonemas de vítimas que, sem provas reais, pareciam ser apenas homens arrependidos da farra luxuriosa da noite anterior. Os agentes antidroga que pouco depois desmantelariam a fraude contaram que tiveram problemas para encontrar denunciantes, já que alguns “se sentiam envergonhados por terem sido fraudados por mulheres”.

Em 2014, um homem apresentado como Fred se atreveu a ir à polícia após encontrar na sua conta uma cobrança de aproximadamente 15.000 dólares. Grampearam seu telefone, ela ligou para a jovem com quem tinha passado aquela noite e conseguiu que esta admitisse que o tinham drogado. Depois de chegar a um acordo com a polícia, foi a mesma jovem quem revelou todo o esquema criminal. A essa denúncia se somariam outras três durante as semanas posteriores. No mês de junho, as quatro strippers e um cúmplice, o gerente de um de seus clubes habituais, foram detidos e acusados de terem roubado cerca de 180.000 dólares em apenas quatro meses.

Nem Barbash nem Keo jamais foram para a cadeia. Não tiveram a mesma sorte outras duas jovens bailarinas que participavam da quadrilha, condenadas a passar apenas os fins de semana na prisão durante quatro meses. Graças ao sucesso da reportagem e sua posterior adaptação triunfal para as telas, essa filha de refugiados cambojanos condenada por conspiração, furto qualificado e lesão corporal sorri no tapete vermelho junto com uma estrela do porte de Jennifer Lopez. “Eu sou a loba de Wall Street’”. Seu uivo agora está sendo ouvido nas salas do mundo todo.

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